Empreendedores e investidores em Soluções baseadas na Natureza (SbN) podem usar a plataforma KYT-e para comparar riscos e oportunidades territoriais e escolher o município com maior aderência ao impacto pretendido. Neste caso de uso da plataforma KYT-e demonstramos como a avaliação de localidades deve ser conduzida. Considere que o usuário está diante da escolha entre os municípios de Tomé-Açu e Acará, ambos no Pará. Ele abre a página de perfil de Tomé-Açu, adiciona Acará na interface “Comparar municípios” e utiliza essa comparação para avaliar a performance de tais localidades no nível agregado, de dimensões e de indicadores; estas informações servem também para dar luz aos aspectos a serem priorizados em a due diligence e as visitas de campo subsequentes.

Ao olhar para os gráficos de radar, ele percebe que Tomé-Açu está melhor posicionado na avaliação geral de oportunidade que Acará, mas também possui um perfil de riscos mais elevados em várias dimensões. O resultado sinaliza que Tomé-Açu pode ser mais atraente para SbN, ao mesmo tempo em que exige uma gestão de riscos mais cuidadosa. Esta é uma condição no contexto amazônico: áreas com alta oportunidade costumam coincidir com maior pressão e complexidade.

Na dimensão Gestão do Uso da Terra , ambos os municípios estão abaixo da média estadual do Pará para Oportunidade, mas Tomé-Açu supera Acará na maioria desses indicadores. O município tem mais vegetação natural excedente, maior avanço na análise ou cancelamento de imóveis rurais privados registrados no Cadastro Ambiental Rural1 e uma parcela maior do território coberta por vegetação nativa. Essa combinação sugere uma base mais sólida para conservação, restauração, agroflorestas e outros modelos de SbN que dependem de ecossistemas saudáveis e que o município possui uma melhor gestão do uso da terra. Ao mesmo tempo, Tomé-Açu apresenta maiores déficits de reserva legal, maior proporção do município ocupada por pastagem, mais embargos e autos de infração do IBAMA, além de maior desmatamento total e recente. Isso indica uma ativa dinâmica de mudança de uso do solo e não conformidade legal nos quesitos ambientais, com possível impacto reputacional, que exigem uma investigação aprofundada sobre como estas dinâmicas podem impactar o empreendimento do usuário.
Acará, por sua vez, apresenta melhor desempenho nos indicadores de desmatamento e fiscalização, contudo mostra maior sobreposição entre propriedades rurais privadas e áreas protegidas, assim como com assentamentos rurais. Isso aponta para uma governança fundiária mais complexa e relações potencialmente sensíveis com terras indígenas, unidades de conservação, comunidades quilombolas e projetos de assentamento. Para agentes de SbN, isso sinaliza a necessidade de um due diligence sobre a propriedade da terra mais minucioso.

Na dimensão Clima e Natureza , ambos os municípios exibem níveis semelhantes de oportunidade (acima da média estadual), indicando que suas características ambientais são altamente favoráveis a SbN. Contudo, Acará apresenta um risco climático ligeiramente maior que o de Tomé-Açu e a média estadual devido a um desvio mais acentuado no número de dias de chuva extrema em 2023 em comparação com sua tendência recente de cinco anos. Isso sugere maior exposição à variabilidade climática e a eventos extremos, com implicações para a estabilidade agrícola e a resiliência de modelos de negócios em SbN. Por Tomé-Açu aparentar menor exposição a esse indicador, o planejamento operacional torna-se ligeiramente mais previsível.

Na dimensão Contexto Econômico , ambos os municípios apresentam perfis de oportunidade semelhantes, acima da média estadual. Nenhum deles oferece uma vantagem econômica clara no nível macro de análise através da plataforma KYT-e, o que indica que os fatores econômicos devem ser refinados em nível de maior granularidade durante as visitas de campo.

Na dimensão Tecido Social , Tomé-Açu se destaca positivamente, e supera a média estadual em Oportunidade. O município tem um ecossistema mais ativo de organizações de defesa de direitos sociais, maior cobertura vacinal e melhor acesso a redes móveis como 4G e 5G. Esses aspectos sugerem uma capacidade local mais forte de organização, comunicação e articulação de parcerias, o que facilita a implementação e a expansão de SbN. Ao mesmo tempo, Tomé-Açu apresenta vulnerabilidades sociais maiores tanto que Acará quanto que a média estadual em Risco, incluindo mais acidentes de trabalho e um número maior de crianças de 0 a 5 anos com peso abaixo do esperado. Isso indica desafios subjacentes nas condições de trabalho e na saúde infantil, que investidores e empreendedores responsáveis devem levar em conta, por exemplo, incorporando salvaguardas sociais e apoiando iniciativas sociais complementares.

A Presença Institucional é onde Tomé-Açu claramente supera Acará e a média estadual, tanto em termos de oportunidades quanto de riscos. Tomé-Açu possui mais unidades e profissionais de saúde, pontua melhor em índices de gestão e contabilidade e atende a uma parcela muito maior de domicílios com coleta regular de lixo. No entanto, a existência de processos disciplinares relacionados à corrupção, fraude ou obstrução, juntamente com uma taxa mais alta de abstenção eleitoral, revela vulnerabilidades na gestão municipal e desconfiança da população em relação às instituições. Este quadro sugere que o ambiente institucional de Tomé-Açu tem mais pontos fortes e fracos que o do seu vizinho, também porque o nível de risco supera até a média estadual. Portanto, embora exista capacidade institucional com a qual se possa trabalhar, o usuário precisaria fazer um mapeamento sólido das partes interessadas para garantir a integridade de suas operações.

Na dimensão Segurança, Acará apresenta risco mais elevado que a média estadual, com maior incidência de conflitos por terra e água do que Tomé-Açu. Isso aumenta a probabilidade de as disputas afetarem o uso da terra, o acesso a recursos e a estabilidade dos projetos. Tomé-Açu parece relativamente mais estável nesse aspecto, o que pode ser uma vantagem para iniciativas que exigem acordos de médio a longo prazo com proprietários e comunidades.

Quando o usuário reúne todas as dimensões, emerge um quadro mais nítido. Tomé-Açu combina oportunidades mais fortes em uso da terra, tecido social e, especialmente, presença institucional, ao mesmo tempo em que concentra mais pressão ambiental e alguns riscos institucionais e sociais. O município se assemelha a um território de alta oportunidade e maior complexidade, o que exige um compromisso firme em mitigar os riscos em um maior número de dimensões. Acará apresenta oportunidades mais modestas de forma geral, riscos climáticos e de conflito um pouco mais altos e sobreposições mais complexas entre áreas privadas e territórios protegidos ou de assentamento.
A partir da interação entre essas dimensões, o usuário pode construir algumas hipóteses sistêmicas. Observa-se que o ambiente institucional mais robusto de Tomé-Açu atua como um motor que sustenta uma economia mais dinâmica, mas também exerce mais pressão sobre o meio ambiente. A "máquina" do município funciona melhor, oferecendo a logística necessária para o agronegócio, o que paradoxalmente acelera a conversão de uso do solo e eleva o desmatamento. Diferente de Acará, onde a sobreposição fundiária gera bloqueios estruturais e conflitos violentos ameaçam paralisar as operações, Tomé-Açu apresenta uma economia que funciona bem e uma sociedade civil organizada. Para o investidor, isso sinaliza que o Tecido Social local, embora vulnerável em indicadores de bem-estar, possui as redes e a capacidade de articulação necessárias para implementar melhorias e criar condições promissoras para projetos de SbN.
Com base na KYT-e, o usuário pode, portanto, decidir priorizar Tomé-Açu para investimento ou para a implantação de um projeto de SbN com uma tese clara: trata-se de um território operacionalmente viável, mas que exige atenção às dimensões de Presença Institucional e Gestão do Uso da Terra. A plataforma não apenas ajuda a identificar Tomé-Açu como o território mais promissor, como também destaca quais riscos específicos exigem atenção. Com isso, é possível estruturar a due diligence e as visitas de campo em torno dos indicadores que sinalizam maior vulnerabilidade, desenhar medidas para enfrentar desmatamento, pressões de uso da terra, riscos de corrupção e vulnerabilidades sociais e identificar quais instituições e organizações deveriam ser envolvidas desde o início. Dessa forma, a KYT-e funciona como um filtro estratégico que orienta onde focar e o que investigar, tornando as decisões territoriais para SbN no Brasil mais informadas, intencionais e transparentes.
1 O cancelamento é visto como positivo porque indica que os registros autodeclaratórios foram avaliados e considerados inadequados segundo as normas vigentes.